A força do Vinil

Quem acompanha a Awa nas redes sociais sabe que, assim como eu, ela adora escutar um bolachão. Nesta semana, foi divulgado que pela primeira vez na história as vendas de vinis foram maiores que as da música digital no Reino Unido. Incrível! Mas o que esse formato tem de tão especial?

Muitas pessoas, especialmente das gerações mais jovens, não abrem mão do digital, é fato. A praticidade é enorme. É possível buscar títulos diversos, conhecer sons novos, criar playlists para compartilhar com os amigos e tantas outras funcionalidades na palma da mão. Em um clique, está tudo ali. Seja para escutar no trabalho, seja para embalar a prática de atividades físicas, os serviços de streaming (Spotify, Apple Music, Deezer..) são uma mão na roda. Porém, para os que possuem uma relação mais pessoal com a música, isso não é o bastante.

Couple listening to music on headphones

Vou contar um pouco de minha vida com essa arte divina. Nascido nos anos 90, desde moleque escutava de tudo com meus familiares, seja nas engraçadinhas fitas cassete ou em CDs e vinis. O primeiro álbum que comprei, em 1996, foi dos saudosos Mamonas Assassinas. Pouco depois, órfão da banda mais irreverente que o Brasil já viu, me apaixonei pelo Oasis, que à época ganhava o mundo com o mega hit “Wonderwall”. Os Beatles, arquétipo do pop rock, já eram sagrados para mim. Em 1998, os irlandeses do U2 vieram ao país pela primeira vez. Um dos shows foi transmitido ao vivo pela extinta MTV. Foi amor à primeira vista. Uma vez que esses e outros artistas começaram a fazer cada vez mais parte do meu cotidiano, não demorou para que eu começasse a aprender a tocar instrumentos musicais e até arriscasse algumas gracinhas com bandas de garagem. Naquela época, a internet engatinhava e eu mal sabia ligar o computador para jogar paciência e campo minado (alguém sabe do que tô falando? rs). O jeito era escutar algo legal na rádio ou ver os clipes na televisão, gravá-los em fitas e depois correr para as duas lojas que haviam em Anápolis (uma na Barão do Rio Branco, outra no AnaShopping), que nem mais existem, à procura do que tinha ouvido. E assim, fui desenvolvendo um verdadeiro ritual ao escutar um álbum.

Em vez de zapear rapidamente por uma playlist, sentava-me no chão, ao lado de um rádio portátil, colocava o CD lá dentro e passava horas a fio ouvindo músicas e mais músicas, enquanto decorava as letras no encarte, me deleitava com as fotos e até lia detalhes técnicos da produção (!!!). Considero o abandono desse hábito por muitas pessoas um fator-chave para a mediocridade que reina na música pop atual. Antes, artistas preocupavam-se em criar discos com começo, meio e fim. Hoje, basta ter um single pegajoso, que toque bastante nas rádios e tenha um clipe que renda boas visualizações no Youtube, e encher o resto do álbum de porcarias que as vendas estão garantidas. Triste. Mas o fato é que, depois de tanto tempo curtindo a música com afinco, fiz o caminho inverso como boa parte dos amigos colecionadores de uns anos pra cá: voltei a dar preferência para o vinil.

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Esse formato maximiza tudo que um trabalho musical tem de melhor. A capa, se bonita, tem sua beleza ainda mais ressaltada pelo tamanho maior do material que embala os discos. O mesmo vale para os encartes. O disco em si é uma obra-prima à parte. Vê-lo rodar na bandeja de nossos players é um espetáculo. O charme e a nostalgia proporcionados nesse momento são únicos! Agora, vamos ao grande diferencial: o som! Claro, o fator mais importante da música é justamente o que faz do vinil o grande novo-velho trunfo da indústria fonográfica. Os graves ficam muito mais destacados. Ao comparar uma música tocada no bolachão com um CD, a diferença é absurda. A comparação com o digital é ainda mais desconcertante. Se o som em questão for antigo, feito especialmente na época em que o vinil reinava soberano, meu amigo… Aí a experiência ganha tons transcendentais. Quem já ouviu o icônico Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band em vinil (e em mono!, porque stereo não é o bastante) sabe do arrepio que me percorre quando ouço a orquestra de “A Day In The Life”.

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O interessante nisso tudo é a curiosidade de muitos para o ressurgir de um formato até poucos anos julgado como obsoleto pelas grandes massas. Creio que os números do vinil tornarão-se ainda mais expressivos, o que é ótimo. Hoje, especialmente no Brasil, não temos acesso a tantos materiais de qualidade. Boa parte dos discos são importados e as vitrolas aqui comercializadas não são lá essas coisas. Porém, as poucas empresas que fabricam discos por aqui têm ganhado força e investido nesse trabalho magnífico. Direto me deparo com bons relançamentos de Jorge Ben, Demônios da Garoa e Os Mutantes, tudo Made in Brazil! A indústria e os fãs da música só tem a ganhar com o bom desempenho, e notícias como a que pintou essa semana me enchem de alegria.

Viva o vinil!

Jorge Takeda

@jorgeftakeda

fimdepost

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