Dias turbulentos: reflexões de uma fã do esporte

Hoje eu peço licença ao blog Awa Guimarães para não escrever sobre moda, cultura, arte ou qualquer assunto que permeia o blog, mas fazer um breve (ou nem tanto) relato sobre minhas paixões, medos e vários sentimentos que resolveram aflorar inevitavelmente com os últimos acontecimentos no país.

Acidentes com aviões me tocam muito. Lembro como se fosse ontem o primeiro que me marcou: Minha irmã estava a caminho dos Jogos da Juventude em Curitiba em 1996 quando um avião da TAM caiu sobre algumas casas logo após a decolagem. A aflição terminou quando tivemos certeza de que ela tinha chegado bem ao destino, mas a tristeza de ver tantas vidas perdidas naquela tragédia não saíram jamais da minha cabeça.

Anos depois, em um vôo com escala também em São Paulo, pegamos uma turbulência muito forte. Ali desenvolvi uma crise de pânico e ansiedade que me atordoava todas as vezes seguintes que eu tinha que pisar em um aeroporto ou ouvia por acaso som de turbinas ligadas ou aviões decolando e aterrissando. Aquilo era horrível, porque se eu tinha um sonho na vida, esse era o de viajar o mundo.

Mesmo com o medo que me dominava totalmente, eu insistia em enfrentá-lo. Nunca deixei de ir em uma viagem por conta dele, mas todas aquelas sensações me dilaceravam e deixavam todos que estavam ao meu lado apreensivos.

Certo dia tive que ir a um neurologista fazer alguns exames e contei sobre tudo o que sentia cada vez que tinha que pegar um avião, então ele me receitou um remédio com dose bem fraca, mas que fez toda a diferença: ele controlava a minha ansiedade e me dava tranquilidade por todo o percurso. Isso mudou a minha vida! Comecei a viajar com muito mais frequência e até curtir todo o trajeto, o que era inimaginável antes.

Com o passar do tempo e com tantos vôos na conta, a lazer e a trabalho, resolvi deixar o medicamento de lado e tentar controlar sozinha todo aquele fuzuê dentro de mim. Para a minha surpresa, eu consegui! Acho que foi uma das maiores alegrias da minha vida quando me vi livre do pequeno comprimido.

Mas quando você já teve crises de pânico, qualquer botãozinho dentro de você que estava desativado e foi acionado por algum motivo extra, pode acabar com toda a sua conquista em segundos.

Voltando da SPFW com a Awa, chegando em Goiânia, pegamos uma tempestade fortíssima que desencadeou uma super turbulência que fez o avião despencar alguns metros por alguns segundos que mais pareciam uma eternidade. Minhas pernas tremiam, minha boca secou, nós nos demos as mãos e eu só sabia orar e rir de nervoso. Todas aquelas sensações horríveis que eu sentia, voltaram em um piscar de olhos.

No último fim de semana fui a São Paulo novamente, agora com meus pais, para assistir o jogo que deu o título brasileiro ao Palmeiras, coincidentemente contra a Chapecoense. Estava apreensiva, tive que tomar meu remédio no meio do caminho porque meu corpo tremia todinho e eu não consegui me concentrar para controlá-lo. Tudo correu bem, apesar da minha mente trabalhar o tempo todo involuntariamente.

Desde muito cedo eu e minha irmã acompanhávamos nossos pais em jogos de futebol na cidade e região. Quando meu pai ainda disputava torneios, estávamos lá, nós e nossa mãe, para torcer e viver tudo aquilo junto com ele. O amor dele pelo Anápolis Futebol Clube e pelo Palmeiras também nos norteou. Ainda hoje, vamos ao estádio quase todos os finais de semana, faça chuva ou faça sol, vibrar ou sofrer, mas estamos sempre lá, juntos.

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Realizamos nosso sonho, eu e meu pai, de vermos o nosso verdão ser campeão brasileiro mais uma vez, mas agora ali, bem de pertinho, sentindo toda a vibração de uma arena com mais de 40.000 torcedores com o mesmo grito, a mesma alegria, a mesma emoção. Foi mágico e parecia que aquela comemoração duraria o resto do ano!

No outro dia acordei com uma sensação estranha e relatei meu medo de voar várias vezes para os meus pais e por telefone para o meu marido. Fiquei agoniada o dia todo, mas acreditei que seria devido ao mal tempo que fazia por lá e que sempre me deixa apreensiva o fato de ter que pegar um avião nessas condições. Voltamos para casa em paz e em segurança, com todas as minhas orações e uma dose de ansiolítico.

Na terça-feira meu esposo me acorda contando sobre o acidente com a Chapecoense e quando ele me falou que tinha sobreviventes, me veio um alívio muito grande, achei que todos poderiam se salvar. Infelizmente não foi assim e toda essa tragédia me abalou profundamente.

Ontem chorei muito, com todas as histórias, com todas as peculiaridades, com todos os sonhos interrompidos, com todas as homenagens de um país que tem no futebol sua catarse.

O esporte, especificamente o futebol, para mim nunca foi só um jogo, uma diversão, mas muito mais que isso. Por ter toda essa proximidade com o mundo da bola, por já termos vivido uma gestão de um clube quando meu pai foi presidente do Anápolis, por sermos amigos de vários jogadores e treinadores que passaram por aqui e que deixaram marcas e nos deram novas famílias para amar, é impossível passar por um acontecimento desse inerte.

 

Com a união do meu medo de voar e com a dor de ver um universo tão próximo da minha família se despedaçar em uma montanha, eu não poderia deixar de fazer esse textão e compartilhar um pouco do que tenho sentido nos últimos dois dias com vocês. Peço desculpas a quem não queria ver esse tipo de texto por aqui, mas acredito que tem milhares de pessoas que se identificam com a minha história e que podem se sentir mais acolhidas ao ver que não estão sozinhas em suas crises de ansiedade.

Que nós brasileiros superemos mais essa dor e que Chapecó se fortaleça com as nossas orações. O mundo inteiro está com vocês e se hoje eu só posso oferecer minhas palavras, que elas sejam recebidas com todo o amor que eu tenho aqui dentro de mim.

Na esperança por dias melhores,

Marcelly

fimdepost

 

 

 

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